sábado, 6 de setembro de 2014

Uma caixa cheia de truques

(e a síndrome de carência de sobrenaturalidade)

 Certa vez vi uma palestra¹ sobre consciência humana feita pelo Dan Dannett (que recomendo muito, inclusive) em que ele resume muito bem um dos maiores problemas da mente humana ao tentar entender os fenômenos naturais que podemos observar: quando pensamos em mágica "de verdade" não pensamos na série de truques e artimanhas que o mágico usa para enganar o público - fazendo com que aquilo que pode ser explicado de forma racional através de observação (para algumas pessoas, perdendo seu encanto) não seja tomado como mágica "de verdade". É meio frustrante para algumas pessoas, mas é pouco provável que exista algum outro tipo de mágica que não seja o ilusionismo, a arte de fazer truques parecerem ter origem sobrenaturais, enganando o público.
 Isso me faz pensar em como nós tratamos nossa mente e consciência como algo sobrenatural, algo de complexidade e beleza irredutível, nos negando a admitir que isso pode ser explicado "somente" pela mera composição celular do nosso cérebro e a forma como suas células interagem quimicamente.
 Olhando de forma mais abrangente, parece uma característica humana evitar a racionalidade ao explicar fenômenos naturais observados: nossos ancestrais olhavam os raios e trovões e atribuíam a figuras divinas, conheceram e dominaram o fogo e o antropomorfizaram. Se observamos o desenvolver das sociedades e como a ciência começa a explicar de onde surgem esses eventos, as religiões e explicações se modificam, mudam-se os deuses e mudam-se as crenças para preencher as lacunas que se formam naturalmente pela ignorância. Mais recentemente podemos perceber que as religiões tem se ocupado mais em explicar questões de alçada mais existencial: de onde viemos? Para onde vamos? Qual nossa função no universo?
 Porém, eu temo que mesmo que muito tempo (humanamente falando) tenha passado desde que o primeiro humano atribuiu a ação de um ser sobrenatural a um evento natural, mal saímos das cavernas quando se trata de preencher as falhas geradas pela ignorância usando explicações irracionais e infundadas. Ao que parece, a ignorância do passado foi substituída pela arrogância e o medo de admitir a ignorância conforme a cada dia descobrimos mais intimamente nossas relações com o universo - e de fato, é assustador pensar que somos apenas amontoados organizados de matéria sem propósito. Talvez, está na hora como espécie de amadurecermos ao encarar a verdade no que observamos, deixar de tentar ver fadas e gnomos para pensar que um jardim é belo.

 Quanto tempo mais vamos ouvir os trovões e pensar no nosso íntimo que são os deuses lutando? Quanto tempo mais vamos ouvir o vento correr por entre os galhos das árvores e pensar no canto das ninfas e na flauta dos sátiros?

Quanto tempo mais vamos ver as milhares de evidências e tentar colocar misticismo em suas brechas?

¹ https://www.youtube.com/watch?v=fjbWr3ODbAo

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