domingo, 14 de setembro de 2014

Como mudar o mundo?


(e porque é tão difícil tentar?)

 Ultimamente tenho pensado muito em porque é tão frustrante tentar mudar alguma coisa da realidade aonde vivemos. Mas comecei um processo de mudança desde meu retorno a casa dos meus pais para passar umas "férias" e organizar as ideias. Eu cheguei a algumas conclusões que vou descrever nesse texto - não quero que pensem que eu sou um tipo de profeta ou coisa parecida, abomino a doutrinação e por isso eu pensei muito em como transformar a mudança da realidade um processo de cada um (e no ritmo de cada um):

 Todos nós queremos em algum ponto da vida modificar para melhor a realidade em que vivemos, mas todos nós morremos na praia quando pensamos que somos pequenos demais para abraçar o mundo. Mas esquecemos que a mudança é um processo que deve começar na unidade mais importa e mais individual: a sua mente.
 No campo das idéias tudo é possível, mas a realidade coloca a barreira do improvável. O monte improvável é alto e íngreme para ser escalado de uma vez, mas pode ser vencido um passo atrás do outro, dia após dia trabalhando duro. Por exemplo: muitas pessoas são contra a exploração dos recursos naturais e tem medo de que em algum dia, isso venha custar a vida de toda a espécie humano e outras muitas espécies.


 Eu tenho na minha carteira dinheiro para terminar a semana sem passar fome, um par de tênis surrados e um computador caindo de velho. Eu quero mudar muitas coisas no mundo, mas o desmatamento é uma das coisas que me deixam mais cabreiro.

 Eu decido que quero terminar de uma vez por todas com o desmatamento e que vou para a amazônia fazer isso, convencendo os madeireiros um-a-um de que o que estão fazendo é errado. Depois disso, vou para brasília pedir uma reunião com a presidenta e o secretário de meio ambiente, bater na mesa e perguntar que merda está acontecendo na cabeça dos dois.


 Qual a chance dessa tentativa de capitão planeta funcionar? Muito próximo de zero, quase inexistente.


 Mas eu posso começar pequeno.

 O primeiro passo é se educar: aprender como eu funciono e o que me faz bem ou mau, preciso aprender sobre o passado para entender o presente, preciso entender o que eu sou, porque sou e como funciono para poder me mudar. Posso parar de comer carne ou comer menos carne, posso não comprar de empresas que fomentam o desmatamento ou o sofrimento animal, posso plantar meu alimento e evitar hábitos que vão destruir minha saúde - o amor pelo mundo tem que começar em você - tenho que me conhecer e entender minhas limitações individuais e saber que existem pessoas para desacreditar, existem os vícios, a fraqueza humana e as recaídas. A ignorância anda de mãos dadas com o preconceito, o medo e a mudança para pior que é causada pela apatia.
 O racismo, machismo e homofobia são outros grandes exemplos disso (talvez os melhores): achamos que esses problemas são como um grande monstro que paira a sociedade quando na verdade está mais para um câncer que cresce dentro de cada um. Se eu me educar e entender o que está errado nos meus atos eu me torno capaz de mudar minhas expressões, minhas ações. Se todos que puderem fazer seu dever de casa, ler um pouco sobre o assunto sem medo e mudar seu âmbito individual o fizerem, não quer dizer uma mudança social significativa?
 Não podemos ter medo de questionar nós mesmos. Temos que aprender a admitir erros, temos que aprender a parar de procurar descanso na sombra de deuses ou ídolos de ouro: devemos ser nossos próprios portos seguros. A
 partir do momento em que você se torna exemplo das suas convicções, isso é mais forte que qualquer argumento que sairá da boca de um algoz.
 A preguiça é um inimigo formidável, as podemos contorná-la e vencê-la aos poucos transformando atos pequenos em hábitos diários. Votar é um exemplo: o que quer dizer despender duas horas do meu dia que eu estaria coçando meu escroto assistindo os debates ou analisando propostas e pesquisando sobre o passado? Devemos cultivar os hábitos positivos e podar os negativos, sem se cobrar demais mas sem usar nossos impedimentos individuais como desculpa para parar. Com uma mente afiada e conhecimento de causa, é mais fácil votar em alguém que vá evitar que as matas sejam derrubadas um campo a dia. E não me joguem esse papo furado de que nenhum partido/político presta, você está gritando com todo o ar dos pulmões que desistiu porque as chances são muito pequenas e você sabe que o mínimo de esforço individual vai te fazer mudar de opinião e o seu medo de largar o comodismo não lhe permite isso.

 Já é um grande passo e poucos conseguem fazê-lo, mas viu como não é tão difícil escalar o monte improvável? Basta ter o equipamento e a técnica certa.
 Depois disso, não é difícil abraçar seu amigo mais próximo, lhe servir de apoio e conselheiro. É de fato mais difícil mudar quando os que estão ao seu redor vão contra você, por isso também não é uma coisa muito legal ser a pedra no sapato das pessoas que tentam mudar alguma coisa - como aquele seu sobrinho mais novo que vai votar em um político x que você sabe não ter tanta bala na agulha e isso irá fazer sua vitória muito improvável, ou aquele amigo que participa da parada gay mesmo sendo hétero. Pessoas que já vislumbraram como se sobe o monte improvável de fato são aquelas que estendem a mão, não aquelas que empurram os outros escaladores morro abaixo.
 Uma pessoa abraça duas, duas abraçam quatro, quatro abraçam dez, vinte e por aí vai.

O monte improvável é muito alto, íngreme e cheio de pedras. É difícil vislumbrar um passo quando se vê tantos subindo tanto e caindo, mas não é questão do quão longe você pode chegar em menos tempo: é tentar chegar o quanto você puder dentro do seu tempo e cada passo vai se tornar mais fácil e o topo cada vez menos nebuloso e distante.

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